História

Angicos: das raízes indígenas à afirmação como cidade

"Imagine o sertão nordestino em meados do século XVIII: vastas caatingas, rios intermitentes e o silêncio quebrado apenas pelo canto das aves e pelo passo firme dos índios pataxó, primeiros habitantes da região. Ali, entre árvores de angico que se erguem como sentinelas, começava a se desenhar a história de Angicos."

As origens

Os pataxó, pertencentes à nação Gê ou Tapuia, foram os primeiros a ocupar o território. A partir de 1760, famílias vindas de outras partes do Rio Grande do Norte começaram a fixar-se na região, estabelecendo fazendas de criação. O tenente Antônio Lopes Viegas, descendente da família Dias Machado, é apontado como fundador.

Em 1783, quando foi criada a Vila Nova da Princesa (atual Açu), já havia diversas fazendas em Angicos. Os registros de medição de terras de 1756 revelam a presença de grandes posses: Baltazar da Rocha Bezerra, Miguel Barbosa Bezerra e Antônio da Rocha Bezerra, cada um com extensões significativas abaixo do rio Pataxó.

A luta pela autonomia

O nome Angicos deriva da árvore típica da região. No início do século XIX, a localidade já contava com igreja matriz, capelas e cerca de 5 mil habitantes. Em 1833, o Conselho Provincial sugeriu sua elevação a vila, e em 11 de abril de 1833, o presidente da província Manoel Lobo Miranda Henrique concedeu autonomia ao território.

A instalação da primeira Câmara Municipal ocorreu em 27 de fevereiro de 1834, presidida pelo capitão Jerônimo Cabral. Mas a independência não foi pacífica: moradores de Santana do Matos, que passaram a pertencer à nova vila, sentiram-se prejudicados e contestaram a decisão.

Em 1835, Angicos foi suprimida e voltou a integrar Açu. Apenas em 1936, por resolução do presidente da província João José Ferreira de Aguiar, o município foi restaurado e, pouco depois, elevado à categoria de cidade.

Personagens e legados

Ao longo do tempo, Angicos foi administrada por militares e políticos locais, como o alferes Florencio Otaviano da Costa Ferreira e o coronel José Rufino da Costa Pinheiro, primeiro administrador na República.

A cidade também se destacou por seus filhos ilustres:

  • Aluízio Alves, ex-governador e ministro.

  • Garibaldi Alves Filho, senador e ministro da Previdência.

  • Georgino Avelino, ex-governador e senador.

  • Além de líderes locais como Expedito Alves e Clemenceau Alves.

Esses nomes revelam como Angicos, apesar de seu porte, exerceu influência política significativa no Rio Grande do Norte.

Reflexão histórica

A trajetória de Angicos é marcada por ciclos de afirmação e supressão, espelhando as tensões políticas do Brasil imperial e republicano. Do território indígena às disputas de poder entre vilas, da luta pela autonomia à projeção de seus filhos na política nacional, Angicos simboliza a persistência sertaneja em afirmar identidade e voz própria.

Hoje, ao caminhar pelas margens do rio Pataxó, é possível sentir que cada pedra, cada árvore de angico, guarda a memória de séculos de resistência e transformação.